Quem já ouviu essa pergunta no meio de um voo sabe que o clima muda na hora. O chamado pelo sistema de som é o momento mais conhecido de uma emergência médica a bordo, mas não é o primeiro. Antes dele, a tripulação de cabine já chegou até o passageiro, fez a primeira avaliação e avisou a cabine de comando.
Esse primeiro atendimento é do comissário, que tem formação para isso. No CEAB, escola de aviação civil com 27 anos de mercado, a formação inclui uma imersão na selva, em que os alunos aprendem a fazer fogo e abrigo, a usar a bússola e a preparar armadilhas, ao lado dos treinamentos de combate ao fogo e marinharia.
Com que frequência acontece
Um estudo publicado em 2013 no New England Journal of Medicine analisou 11.920 emergências médicas em voos comerciais registradas por um centro de apoio médico em solo e chegou a uma frequência de uma a cada 604 voos. Desmaio ou quase desmaio responderam por 37,4% dos casos, seguidos por sintomas respiratórios, com 12,1%, e náusea ou vômito, com 9,5%.
Quando o médico aparece
Passageiros médicos ajudaram no atendimento em 48,1% das ocorrências. Ou seja, em quase metade dos casos um médico entre os passageiros levantou a mão. As ocorrências do estudo foram registradas a partir de chamadas feitas durante o voo a um centro de apoio médico em solo.
“O passageiro vê o comissário no serviço de bordo e acha que o trabalho é esse. A gente forma a pessoa para a hora em que alguém passa mal no corredor, e isso não se aprende só na teoria: se treina com o corpo até virar reflexo”, afirma Salmeron Cardoso, diretor e CEO do CEAB.
Quem manda no voo
A Lei 13.475, de 2017, conhecida como Lei do Aeronauta, dá ao comissário de voo a designação de tripulante de cabine e o define como auxiliar do comandante encarregado do cumprimento das normas relativas à segurança e ao atendimento dos passageiros a bordo. Ao comandante, a mesma lei atribui a responsabilidade pela operação e pela segurança da aeronave, o que inclui, na prática, decisões como a de pousar fora do destino para levar um passageiro a atendimento. No estudo, o avião precisou ser desviado em 7,3% das emergências.
Depois do pouso
Depois do pouso, 25,8% dos passageiros atendidos foram levados a um hospital por equipes de emergência, 8,6% foram internados e 0,3% morreram.
“Na selva, o aluno aprende que o resgate pode demorar e que alguém precisa manter o grupo de pé até ele chegar. No avião é igual: entre o primeiro sinal e o pouso, quem está ali para agir é a tripulação”, diz Salmeron.
Onde isso se aprende
A imersão na selva da escola foi registrada em vídeo. As imagens trazem a turma em briefing na mata, na prática de fogo e no uso de sinalizador à noite. “Ninguém embarca pensando que vai precisar da gente. É por isso que o treino tem que acontecer antes, longe do avião, num lugar em que errar ainda faz parte do aprendizado”, afirma o diretor.
Sua parte
Avisar os comissários ao primeiro sinal de mal-estar, em vez de esperar melhorar, dá mais tempo para a avaliação. Informar doenças preexistentes e remédios de uso contínuo facilita o atendimento, e manter esses medicamentos na bagagem de mão evita que fiquem fora de alcance durante o voo.
O chamado por um médico é a parte que todo mundo escuta. A parte que ninguém vê começou antes, com quem estava ali para isso.
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