O caso
Na última semana antes do primeiro turno, um exportador de madeira tinha US$ 5 milhões a receber de uma venda ao exterior, com pagamento em 40 dias. As pesquisas indicavam uma disputa apertada, e a mesa da GX Capital avaliou que esse cenário abria espaço para uma queda do dólar, puxada pelo otimismo do mercado com a possibilidade de alternância no governo. A empresa antecipou 100% do recebível via ACE, o Adiantamento sobre Cambiais Entregues, com o câmbio na casa de R$ 5,22.
Na segunda-feira, 5 de outubro, o dólar fechou a R$ 5,0022. A diferença de cerca de R$ 0,22 por dólar em relação à taxa contratada equivale a aproximadamente R$ 1,1 milhão de receita preservada na operação. Sem a antecipação, a empresa converteria os mesmos US$ 5 milhões, no vencimento, a uma cotação que dependeria do que o mercado fizesse nos 40 dias seguintes à eleição.
“O exportador de madeira tinha US$ 5 milhões a receber em 40 dias e as pesquisas mostravam um primeiro turno apertado, cenário em que o dólar podia cair com o otimismo do mercado. Antecipamos 100% via ACE a R$ 5,22, e a margem dele ficou protegida da queda de segunda”, afirma Vinicius Teixeira, sócio da GX Capital.
A decisão não foi uma aposta de que o dólar cairia. Foi a proteção da margem contra o cenário em que ele cairia, tomada antes de o cenário se confirmar.
O dado
A queda de 4,12% na sessão de 5 de outubro foi a maior baixa diária desde junho de 2018 e levou a moeda ao menor fechamento desde 21 de maio. Com ela, o dólar acumula recuo de 8,87% em 2026. No mesmo pregão, o Ibovespa subiu 7,70%, para 206.911 pontos, depois de tocar a máxima histórica de 209.605 pontos, e os juros futuros recuaram com força: o DI para janeiro de 2028 caiu 84 pontos-base, a 12,665%, e o de janeiro de 2035, 133 pontos-base, a 12,8%.
O movimento veio do resultado das urnas. Flávio Bolsonaro (PL) terminou o primeiro turno à frente, com cerca de 47% dos votos válidos, contra cerca de 45% de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), uma diferença de 2,4 milhões de votos. A disputa segue para o segundo turno, em 25 de outubro. A leitura predominante entre analistas é de que o mercado antecipou, num único pregão, parte do ajuste que costuma vir depois do resultado final, com entrada de capital estrangeiro na bolsa ampliando a oferta de dólares.
“A janela eleitoral não fechou no domingo, mudou de sinal: o dólar saiu de R$ 5,22 na sexta para R$ 5,00 na segunda, 4% numa sessão. Quem chegou ao dia 5 com as tranches de outubro contratadas atravessou a segunda sem decidir nada sob pressão”, diz Teixeira.
O que estava publicado antes da urna
A GX vem tratando o período eleitoral como um regime de mercado, e não como uma aposta de direção, desde maio, quando passou a usar o termo dólar eleitoral para nomear a janela de agosto a outubro em que a cotação incorpora o prêmio de dois resultados possíveis. Em setembro, a mesa descreveu os dois cenários da manhã de 5 de outubro, disputa definida no primeiro turno ou levada ao segundo, e recomendou chegar ao dia 4 com as tranches de outubro já contratadas, em passo curto.
O que veio foi uma combinação que o quadro de setembro não separava: disputa levada ao segundo turno, com movimento de acomodação de primeiro turno. É nesse tipo de desvio que a escolha do método pesa mais do que a precisão da previsão.
“A projeção de pico de R$ 5,55 que fizemos em maio não se confirmou, e é exatamente por isso que a mesa não opera nível. O hedge em camadas foi desenhado para funcionar quando a previsão erra”, afirma o executivo.
O que a proteção fez em cada ponta
O caso do exportador de madeira ilustra a ponta que mais sofre com a queda: a receita em dólar ainda não convertida. A mesma lógica vale para quem vendeu a receita dos embarques de outubro em NDF de venda escalonado ao longo de setembro, e o ACC cumpre papel equivalente antes do embarque. Em todos os casos, a empresa deixa de depender da cotação do dia em que precisa do dinheiro.
Do lado importador, a leitura é de custo médio. A tranche de NDF de compra contratada em setembro, na casa de R$ 5,10, ficou acima do spot desta semana, mas protegeu a empresa da alta para R$ 5,22 que antecedeu a votação. As parcelas que ainda não estavam fixadas, as de novembro e dezembro no desenho padrão do hedge em camadas, passam a ser contratadas a um nível mais baixo, o que reduz o custo médio do período inteiro.
Os 19 dias até o segundo turno
A queda de segunda-feira não encerra o regime de alta amplitude. A diferença de cerca de dois pontos percentuais entre os candidatos mantém o segundo turno como evento em aberto, e o mercado passou a operar um dos resultados como cenário principal. Para a mesa, isso muda o lado de onde vem o risco, não a existência dele: a pergunta deixa de ser quanto o dólar pode subir até a urna e passa a ser quanto pode devolver se a leitura de segunda-feira for revista.
“Até 25 de outubro o mercado vai operar um resultado como se ele já estivesse dado. As tranches que faltam seguem no passo curto, porque a segunda-feira mostrou o tamanho do movimento possível, e ele vale para os dois lados”, conclui o sócio da GX.
Na GX, que reúne mais de R$ 2 bilhões em volume estruturado, a leitura de cenário e o dimensionamento das operações passam pelo Aurum IA, tecnologia própria disponível no aplicativo do cliente, que simula o efeito de cada decisão de câmbio, crédito e carteira antes da recomendação da mesa.
O post Por que o dólar caiu e a bolsa bateu recorde no mesmo dia depois da eleição apareceu primeiro em UAI Notícias.