No norte do Chile, uma camada vulcânica gigantesca formada há 21,9 milhões de anos cobriu uma paisagem inteira dos Andes. Em alguns pontos, o depósito já chega perto de 1 km de espessura. Ao modelar o relevo soterrado, pesquisadores reconstruíram pistas de como aquelas montanhas eram antes da erupção.
Que camada vulcânica conseguiu esconder uma paisagem inteira?
O depósito está ligado à caldeira Lauca, no norte chileno. Uma erupção gigantesca lançou fluxos quentes de cinzas, gases e fragmentos de rocha que se espalharam por uma área enorme, formando uma cobertura conhecida como ignimbrito.
Em vez de desaparecer com a erosão, parte daquela cobertura permaneceu sobre o relevo por milhões de anos. Em alguns pontos, o material atingiu espessuras próximas de 1 km, criando uma espécie de molde geológico sobre o terreno que existia antes da erupção.

Como os pesquisadores reconstruíram algo que continua enterrado?
A equipe não precisou escavar toda a região. O estudo comparou a forma atual do depósito com centenas de cenários de relevo antigo produzidos em computador. A reconstrução liderada pela UCL testou quais paisagens caberiam sob aquela enorme camada.
O raciocínio é geométrico: terrenos muito íngremes exigiriam mais material para serem totalmente cobertos. Como o volume do depósito é conhecido, os modelos que melhor se encaixaram apontaram para um relevo relativamente suave, semelhante a áreas de sopé, antes do soterramento.
O que a camada vulcânica revelou sobre os Andes antigos?
Os modelos indicaram que aquela parte dos Andes provavelmente já estava subindo, mas sem o relevo extremo de hoje. O trabalho publicado em Science Advances estimou uma taxa de soerguimento inferior a 0,26 km por milhão de anos.
Três pistas sustentam essa interpretação:
- Relevo baixo: apenas paisagens mais suaves cabiam sob a espessura disponível do depósito.
- Volume conhecido: a quantidade de material limita o tamanho possível das montanhas antigas.
- Erosão modelada: simulações de rios ajudaram a estimar como o terreno poderia ter evoluído.

Por que os cientistas compararam o caso a uma “Pompeia” geológica?
A comparação vem do efeito de preservação. Assim como uma erupção pode cobrir estruturas humanas rapidamente, um grande fluxo piroclástico pode congelar características do relevo sob toneladas de material. Nesse caso, a paisagem soterrada deixou pistas suficientes para ser inferida milhões de anos depois.
A diferença está na escala. Em vez de uma cidade, o depósito recobriu uma região vastíssima, aproximadamente seis vezes maior que Santiago. Isso transformou a erupção em um arquivo natural de longa duração, capaz de guardar informação sobre a construção de uma cadeia de montanhas.
O que essa técnica pode revelar em outras regiões vulcânicas?
O método abre uma forma diferente de investigar terrenos que não podem ser observados diretamente. Onde houver depósitos vulcânicos extensos e bem mapeados, a relação entre volume, inclinação e erosão pode ajudar a reconstruir paisagens desaparecidas sem depender apenas de rochas expostas na superfície.
No caso dos Andes, o resultado favorece um cenário de crescimento gradual ao longo de milhões de anos. A camada vulcânica que parecia apenas esconder o terreno acabou oferecendo justamente o contrário: um modo de recuperar parte do relevo que existia muito antes da paisagem atual.
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