Gastar mais na reforma nem sempre significa vender por mais. No mercado imobiliário dos Estados Unidos, cada rua ou comunidade tem uma faixa de preço que os compradores daquela região aceitam pagar. Quem investe muito acima desse patamar corre o risco de não ver o dinheiro voltar na revenda. É o chamado teto da rua.
A arquiteta e designer de interiores Andria Tagliari, brasileira que vive nos Estados Unidos, inclui esse ponto entre os erros mais repetidos por compradores do Brasil na Flórida. “Os três erros se repetem: importar o programa da casa brasileira para um mercado que valoriza cozinhas abertas e áreas externas integradas, construir acima do teto da rua e fazer o projeto em etapas depois da compra, pagando duas vezes pela mesma obra”, afirma. Ela tem mais de duas décadas de experiência em projetos residenciais de alto padrão e mais de 80 mil pés quadrados sob gestão em projetos residenciais e comerciais no estado.
O que é o teto da rua?
Quem procura casa numa rua ou comunidade compara o imóvel com os vizinhos. Se uma reforma leva a casa muito além do padrão do entorno, o preço pedido se afasta do que aquele público costuma pagar, e a conta pode não fechar na hora de vender.
Um estudo americano ajuda a entender a lógica. O relatório Cost vs. Value 2025, da Zonda, comparou o custo de 28 tipos de reforma com o valor recuperado na revenda em 119 mercados dos Estados Unidos. Grandes reformas internas, com escolhas muito pessoais de acabamento, recuperam uma parcela menor do investimento. O levantamento trata do mercado médio.
E nas casas de luxo, a regra muda?
No alto padrão, o comportamento é outro, porque o comprador procura um conjunto que funcione. Na região de Orlando, em comunidades fechadas como Isleworth e Golden Oak, os valores partem de US$ 3 milhões. “O comprador de uma casa de US$ 5 milhões não está comprando metros quadrados. Está comprando uma casa resolvida. Um projeto incoerente derruba o valor do imóvel; um projeto que integra arquitetura, interiores e execução é o que sustenta o prêmio na revenda”, diz Tagliari.
Em outras palavras, gastar muito não basta. O que sustenta o preço é um projeto coerente com a casa e com a região onde ela está.
Como não passar do ponto?
A arquiteta recomenda três linhas na planilha antes de fazer a oferta. A primeira conversa diretamente com o teto da rua: um orçamento de projeto e obra proporcional ao valor do imóvel. As outras duas são um cronograma realista, que considere licenças e prazo de execução na Flórida, e uma tese de saída, seja revenda, seja locação de temporada, que oriente as escolhas desde o início.
O cuidado vale para muita gente. Compradores brasileiros movimentaram US$ 762 milhões em imóveis residenciais na Flórida entre agosto de 2024 e julho de 2025, segundo a Florida Realtors, e o Brasil está entre os três maiores países de origem de compradores estrangeiros no estado.
“O comprador brasileiro chega com a planilha do imóvel pronta e sem nenhuma linha para o projeto. No alto padrão da Flórida, o projeto não é a decoração do investimento. É parte do ativo”, afirma Tagliari.
Então, reformar demais desvaloriza?
Reformar acima do padrão da rua pode fazer o dono gastar sem recuperar esse valor na venda. A saída, segundo a arquiteta, é definir o tamanho da obra a partir do valor do imóvel e do perfil da vizinhança antes de fechar negócio. “O projeto entra na conta antes da escritura, não depois. Quem faz essa conta cedo compra melhor, gasta menos e vende mais rápido”, conclui.
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