Quem é médico no Brasil e pensa em trabalhar nos Estados Unidos costuma começar pelas provas. Para a advogada internacionalista, professora e mentora Érika Calazans, autora do Manual definitivo do green card para médicos, o primeiro passo é outro: tratar licença e imigração como um único projeto. Segundo ela, as exigências estaduais e migratórias variam caso a caso, e o planejamento jurídico desde o início ajuda a evitar decisões que atrasam o processo.
Um exemplo comum é escolher o estado de destino sem conferir se o pedido de visto é compatível com o tipo de licença oferecido ali.
Duas portas diferentes
A confusão tem explicação. A licença para atender pacientes é concedida pelo conselho médico de cada estado. Já a permissão para morar e trabalhar no país depende das autoridades federais de imigração. Uma porta não abre sem a outra: Idaho, Iowa e Wisconsin, por exemplo, exigem status migratório federal para dar ou manter a licença provisória.
O manual de políticas do USCIS (U.S. Citizenship and Immigration Services), órgão federal de imigração, também reconhece que alguns conselhos só emitem licença com autorização de trabalho ou número de Social Security em mãos.
O que mudou nos estados
A boa notícia é que o caminho ficou mais variado. Desde 2023, 24 estados aprovaram leis que permitem ao médico formado no exterior chegar à licença plena sem refazer a residência na América do Norte, de acordo com a FSMB (Federation of State Medical Boards). Só em 2026 entraram na lista Geórgia, Kentucky, Louisiana, Nebraska, Virgínia Ocidental e Vermont.
Na prática, o médico começa com licença provisória, trabalha supervisionado e fica ligado a um empregador aprovado. Em vários casos, a vaga é em área rural ou com falta de atendimento. A lista de requisitos também pesa. Na Flórida, por exemplo, são cobrados licença ativa no Brasil, prática nos quatro anos anteriores, provas do USMLE (United States Medical Licensing Examination), certificação da ECFMG (Educational Commission for Foreign Medical Graduates), exame de inglês médico e oferta de emprego.
Mesmo com essas exigências, a mudança é grande. Pelo manual do USCIS, cerca de 75% dos estados pedem de quem se formou fora um treinamento extra de pós-graduação, o que normalmente significa voltar à residência.
E o green card?
A lei americana tem uma rota específica para médicos, o Physician National Interest Waiver. Ela dispensa a oferta de emprego tradicional para quem se compromete a atender em tempo integral áreas carentes ou unidades de veteranos. O green card, porém, só sai depois de cinco anos nesse trabalho, e o tempo em visto J-1 não conta. Também é preciso uma carta de órgão público atestando que o trabalho é de interesse público.
As regras federais também mudam. Em janeiro de 2026, a emissão de vistos de imigrante para brasileiros chegou a ser suspensa, e só foi liberada por decisão judicial em 21 de agosto, conforme reportagem da Band.
O que está em jogo
O interesse tem motivo. O BLS (Bureau of Labor Statistics) aponta mediana salarial anual de US$ 275.930 para médicos e cirurgiões em maio de 2025. E a HRSA (Health Resources and Services Administration), agência de saúde do governo americano, projeta falta de 141.160 médicos no país em 2038.
Por onde começar
A orientação de Érika é buscar primeiro as fontes oficiais, como os sites dos conselhos estaduais, da FSMB e do USCIS, e só depois investir em exames, candidaturas ou pedidos de visto, de preferência com análise individual do caso.
“Não existe roteiro único. A especialidade, o histórico de formação, o estado escolhido e a situação migratória de cada médico definem o que é viável e em quanto tempo”, afirma.
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