Comprar de empresa do Simples gera crédito de CBS? Gera, sim. Só que, na maioria dos casos, o crédito é bem menor do que o de uma compra feita de fornecedor do regime regular. E isso começa a fazer diferença no caixa a partir de 1º de janeiro de 2027, quando PIS e Cofins saem de cena e a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) passa a ser cobrada por inteiro, como prevê o calendário da Lei Complementar 214/2025.
A regra está no artigo 47 da LC 214/2025: quando o fornecedor é optante do Simples Nacional e continua pagando pelo DAS (Documento de Arrecadação Simplificada), o crédito de quem compra fica limitado ao montante da CBS devido dentro do Simples. Bota na ponta do lápis, com um exemplo hipotético e alíquota ilustrativa de 9%. O fornecedor A, do regime regular, cobra R$ 109, com R$ 9 de CBS destacada que a empresa aproveita. Custo líquido: R$ 100. O fornecedor B, do Simples, cobra R$ 104, mas passa um crédito de uns R$ 2. Custo líquido: R$ 102. O preço menor na nota acabou saindo mais caro.
E quem antes nem ligava para isso agora precisa ligar. As empresas do Lucro Presumido pagam hoje PIS e Cofins no regime cumulativo, sem crédito nenhum sobre as compras. Na CBS, elas passam para o mesmo regime regular do Lucro Real, não cumulativo e de crédito amplo. Ou seja, o regime do fornecedor entra na conta delas pela primeira vez.
O valor exato ainda não saiu. O Tribunal de Contas da União (TCU) tem até 30 de outubro para homologar o cálculo da alíquota de referência de 2027, e o Senado, até 15 de dezembro para fixá-la. As projeções falam em algo perto de 9%.
Tem uma boa notícia no meio do caminho. Pelas regras do Comitê Gestor do Simples Nacional, as empresas do Simples podem optar, de 1º a 30 de outubro de 2026, por apurar IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) e CBS pelo regime regular a partir de janeiro, sem sair do Simples nos outros tributos. Dá para cancelar até 20 de dezembro, e a próxima janela abre em março de 2027. Então vale perguntar ao fornecedor qual foi a escolha dele.
E se o fornecedor pequeno for justamente o melhor parceiro, por prazo, qualidade ou porque fica ali do lado? “Muitas vezes o caminho não é trocar, é renegociar o preço com base no crédito que o fornecedor consegue ou não transferir. O que não dá é decidir sem essa conta na mesa”, diz Carlos Gago, CEO da Trinity Consultoria Tributária.
Para fazer essa conta, a Trinity começa por um mapa dos fornecedores: regime de cada um, quanto pesa no custo e qual crédito rende em cada cenário de alíquota. É a primeira fase do trabalho, um diagnóstico sem custo feito junto com o contador da empresa, que conhece a operação por dentro.
Quem mais ganha com o exercício são empresas do Presumido e do Real com muitos fornecedores no Simples. Se a empresa já compra quase tudo de grandes fornecedores do regime regular, ou se vai continuar no Simples, o efeito tende a ser pequeno.
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