A inteligência artificial chegou ao canal de denúncias das empresas. Usar a tecnologia para fazer a triagem dos relatos foi a aplicação mais comentada no Compliance 360°: conectando tecnologia, integridade e pessoas, evento realizado em 21 de outubro, em São Paulo, pela clickCompliance e pelo Kronoos.

A primeira edição reuniu mais de 150 profissionais da área em um dia inteiro de programação, das 9h às 18h, com quatro painéis: conflito de interesses, gestão de terceiros, inteligência artificial aplicada a canais de denúncia e sanções internacionais e listas restritivas na relação com parceiros comerciais.

Por que o canal de denúncias importa tanto

É por ali que a maior parte das irregularidades vem à tona. O relatório Occupational Fraud 2026, da ACFE (Association of Certified Fraud Examiners), analisou 2.402 casos em 143 países e mostrou que 43% das fraudes foram descobertas a partir de um relato. Um esquema típico leva 12 meses até ser identificado, e as organizações perdem cerca de 5% da receita anual com fraudes internas.

Onde a IA entra

Na prática, a tecnologia ajuda a organizar o volume de relatos e a cruzar dados de fornecedores e parceiros com listas restritivas e de sanções. O objetivo é automatizar processos operacionais e acompanhar obrigações regulatórias, para que a equipe gaste mais tempo analisando e decidindo.

O movimento já é visível nas áreas de controle. Levantamento do Gartner com 161 executivos de auditoria interna, feito em maio de 2026, indica que 93% dessas áreas usam IA em algum nível. Ao mesmo tempo, 60% ainda não têm uma estratégia formal para a tecnologia.

“Quando uma fabricante de aeronaves, uma fundação de pesquisa e um escritório de advocacia comparam como enfrentam os mesmos problemas, fica claro que a integração é um desafio de todo o mercado. A tecnologia ajuda quando os dados de cada área passam a conversar. Sem isso, cada frente continua enxergando só a sua parte do risco”, diz Erthal.

Tecnologia que depende de integração

Para que a IA ajude de verdade, as informações das diferentes áreas precisam estar ligadas. Esse foi o fio condutor do evento: a falta de integração entre as frentes do compliance e os riscos que passam despercebidos por causa dessas lacunas.

“Boa parte das empresas já tem canal de denúncias, política de conflito de interesses e processo de due diligence. A proposta do Compliance 360° foi olhar para o que acontece entre essas frentes. Um fornecedor citado em uma denúncia, um conflito declarado que nunca chega ao time de compras: é nesses intervalos que o risco cresce sem que ninguém perceba”, afirma Marcelo Erthal, CEO da clickCompliance.

A relação com parceiros reforça o ponto. Em pesquisa do Gartner divulgada em 2025, mais de 82% dos líderes de compliance relataram consequências ligadas a riscos de terceiros nos 12 meses anteriores. Já o Decreto 11.129/2022, que regulamenta a Lei Anticorrupção (12.846/2013), inclui canais de denúncia, diligências com terceiros e monitoramento contínuo entre os parâmetros de avaliação dos programas de integridade.

Quem esteve no evento

Os painéis contaram com executivos de Embraer, Mercedes-Benz, Norsk Hydro, Howden Brasil, Fundação Butantan, TozziniFreire, Elopar, Clariens Educação, MetLife, Natura Pay, Unimed Campinas, Grupo Biolab, OEC e Qualicorp. O encontro foi realizado pela clickCompliance e pelo Kronoos, empresas de tecnologia para compliance reconhecidas como Top LegalTech pelo ranking 100 Open Startups, para estimular debates, troca de experiências e conexões na comunidade de compliance.

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