Em Fordlândia, distrito de Aveiro, no oeste do Pará, Henry Ford tentou implementar em 1927 um ambicioso projeto para romper o monopólio britânico do látex. Com uma concessão de 10 mil km² às margens do Rio Tapajós, a Ford Motor Company ergueu uma cidade com infraestrutura americana, incluindo cinema, hospital e campo de golfe, visando abastecer diretamente as fábricas em Detroit. O projeto, contudo, fracassou devido ao fungo Microcyclus ulei, à Revolta dos Caboclos de 1930 e ao surgimento da borracha sintética. Em 1945, após prejuízos estimados entre 9 e 20 milhões de dólares, a área foi vendida ao governo brasileiro por 250 mil dólares.
A concessão aprovada por Dionísio Bentes em 1927
A história começa nos anos 1920, quando a Ford Motor Company consumia enormes quantidades de borracha para pneus, mangueiras e vedações. O suprimento dependia inteiramente de plantações asiáticas controladas por um cartel britânico, situação que Ford considerava humilhante. A solução seria plantar seringueiras no lugar de onde a árvore Hevea brasiliensis era nativa: a Amazônia. Em 1927, a empresa adquiriu a concessão de cerca de 10 mil km² às margens do Tapajós. Alguns registros oficiais indicam 14.568 km². O contrato foi aprovado pelo governador do Pará, Dionísio Bentes, junto à Assembleia Legislativa. Os termos isentavam a Companhia Ford Industrial do Brasil de qualquer taxa de exportação sobre borracha, madeira ou outros produtos.
A negociação teve um curioso intermediário. O cafeicultor Jorge Dumont Villares intermediou a venda por 125 mil dólares em comissão, valor que a Ford poderia ter evitado tratando diretamente com o poder público, segundo o historiador Greg Grandin, professor da Universidade Yale e depois da Universidade de Nova Iorque. Grandin publicou em 2009 o livro Fordlândia: Ascensão e Queda da Cidade Esquecida de Henry Ford na Selva, que virou referência global sobre o caso e foi incluído pelo The New York Times na lista dos 100 melhores livros do ano. Dois navios da própria empresa, o Lake Ormoc e o Lake Farge, saíram de Michigan em 1928 carregando madeira, telhas, mudas e até um hospital inteiro desmontado com destino ao Tapajós.

A cidade americana no meio da selva com hidrantes de Detroit
Fordlândia foi projetada como um pedaço dos Estados Unidos transplantado para a Amazônia. O plano contemplou infraestrutura inédita para a região no início do século XX: campo de golfe, cinema, piscina, hospital moderno e casas de madeira típicas do subúrbio americano com varandas teladas e telhados inclinados. O hospital foi projetado pelo arquiteto Albert Kahn, um dos mais influentes projetistas industriais dos Estados Unidos na primeira metade do século XX, responsável também pelas fábricas da Ford em Highland Park e River Rouge. Ainda hoje, caminhando pelo distrito, é possível encontrar hidrantes vermelhos de ferro fundido com a inscrição gravada Detroit, calçadas planejadas, casas em verde e branco e uma Caixa D’Água metálica com cerca de 50 metros de altura que continua de pé como um farol enferrujado sobre a vila.
O choque cultural veio junto. A administração americana impôs regras rígidas aos trabalhadores locais. Sirenes marcavam os turnos, relógios de ponto controlavam a jornada, o uso de crachá era obrigatório e o consumo de bebida alcoólica era proibido dentro dos limites da vila. Os caboclos, acostumados a organizar o dia pelo ciclo do sol e das chuvas, estranharam o ritmo industrial. Também deveriam abandonar as redes de dormir para morar em casas ao estilo americano. O contrabando de cachaça foi criativo: os trabalhadores escondiam garrafas dentro de melancias trazidas pelo Tapajós. Na margem oposta do rio ficava a chamada Ilha dos Inocentes, um bordel e ponto de comércio de bebida clandestina que ganhou o apelido irônico entre os operários.

A Revolta dos Caboclos de 1930 e o cardápio proibido
A tensão explodiu em dezembro de 1930. O estopim foi um episódio no refeitório de uma usina, quando os trabalhadores exigiram a volta da comida regional (peixe frito, farinha, açaí, feijão) e rejeitaram o cardápio importado que lhes era imposto (hambúrguer e espinafre eram servidos regularmente). A proibição do álcool e a rigidez dos horários se somavam às reclamações. Segundo divulgação de estudos históricos citados em obras acadêmicas, quando um grupo de trabalhadores foi repreendido pelos gerentes americanos, centenas de operários armados invadiram os prédios administrativos, danificaram os geradores e expulsaram os gestores. O episódio ficou conhecido como Revolta dos Caboclos ou Quebra-Panelas.
Os gerentes americanos fugiram pela Floresta Amazônica ou pelas águas do Tapajós, dependendo da localização em que estavam quando o levante começou. Foi preciso a intervenção do Exército Brasileiro para restabelecer a ordem. A empresa fez algumas concessões no cardápio depois da revolta, mas as relações de trabalho continuaram tensas até o fim do projeto. Enquanto os conflitos culturais consumiam energia administrativa, a natureza sabotava silenciosamente o objetivo central do empreendimento. As seringueiras plantadas em monocultura densa, fileira após fileira como se plantam trigo no Kansas, viraram alvo perfeito para pragas típicas da região, que na natureza selvagem se controlavam automaticamente pela distância entre indivíduos da mesma espécie.
Este vídeo do canal Evandro-etc-br, com 745 mil visualizações, narra a ambiciosa e trágica história de Fordlândia, um projeto de Henry Ford na Amazônia que pretendia ser uma cidade modelo industrial, mas terminou como um fracasso retumbante.
O fungo Microcyclus ulei que ninguém sabia combater
O grande vilão biológico do projeto foi o fungo Microcyclus ulei, causador da doença conhecida como mal-das-folhas. Trata-se de um micro-organismo originário da própria Amazônia, que queima a folhagem das seringueiras causando desfolhamentos sucessivos, prejudicando o crescimento, reduzindo a produção de látex e, em pouco tempo, matando a árvore. Nas plantações densas de Fordlândia, o fungo saltava de galho em galho e dizimava seringais inteiros antes que qualquer tratamento pudesse ser aplicado. Complementavam o desastre agrícola as saúvas, as lagartas e os ácaros, além do solo pedregoso e pouco fértil escolhido para o plantio inicial. Ford só contratou um botânico especializado em 1932, cinco anos após o início da operação: o inglês James R. Weir.
Os números do fracasso são impressionantes. Em 1929, um ano após o início dos trabalhos, apenas 400 hectares haviam sido cultivados, longe dos 200 mil hectares originalmente planejados. Em 1931, o número subiu para 900 hectares. Weir recomendou abandonar a área original e migrar para uma região mais favorável. Em 1934, a Ford transferiu parte das operações para Belterra, cidade a cerca de 48 km de Santarém e 100 km ao sul de Fordlândia. Em Belterra, o solo era mais arenoso, os ventos ajudavam a dispersar esporos e a umidade era menor. O projeto teve um novo alento, mas nunca atingiu volume comercial. Vale ressaltar que a ciência até hoje não conseguiu desenvolver um método eficaz de controle do mal-das-folhas, motivo pelo qual a maior parte da borracha natural do mundo ainda vem de plantações asiáticas.
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A venda de 1945, os 1.200 moradores atuais e a petição parada no IPHAN
O golpe final veio da Segunda Guerra Mundial. Com o desenvolvimento em larga escala da borracha sintética a partir do petróleo, o látex natural amazônico perdeu relevância estratégica para a indústria automobilística. Em dezembro de 1945, sem jamais ter pisado no Brasil, Henry Ford vendeu toda a propriedade ao governo brasileiro por cerca de 250 mil dólares. As estimativas do prejuízo total variam entre 9 e 20 milhões de dólares da época, dependendo dos custos operacionais e de infraestrutura considerados. O empresário morreu em Dearborn, no Michigan, em 7 de abril de 1947, aos 83 anos, com o balanço final de sua utopia amazônica ainda em aberto.
Fordlândia não desapareceu completamente. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cerca de 1.200 pessoas vivem hoje no distrito, muitas delas em casas originais do projeto americano, alugadas ou compradas depois da retirada da empresa. Os galpões industriais, o hospital de Albert Kahn, a serraria e o Power House (galpão das máquinas) estão tomados pela vegetação, criando um cenário procurado por fotógrafos, documentaristas e historiadores. Em 2017, Fordlândia foi oficialmente reconhecida como distrito de Aveiro. Em 1990, foi apresentada uma petição ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) pedindo o tombamento das ruínas de Fordlândia e Belterra como patrimônio histórico brasileiro. O processo continua sem conclusão até hoje, mantendo em aberto a decisão sobre o destino oficial de um dos mais estranhos capítulos da industrialização mundial no Brasil.
Um caso que ainda ensina o mundo sobre monocultura e utopia
Fordlândia guarda uma das lições empresariais mais estudadas do século XX. A tentativa de transplantar o modo de vida americano, os hábitos alimentares, a arquitetura, os relógios de ponto e a agricultura em monocultura densa para o coração da Amazônia encontrou barreiras culturais, biológicas e climáticas que nenhum capital do mundo conseguiu superar. Poucos episódios da história industrial reúnem tantos elementos improváveis: um bilionário que nunca visitou sua própria criação, um fungo microscópico que derrubou o planejamento da empresa mais poderosa do planeta e uma revolta popular contra o cardápio de espinafre.
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