Não precisa. E quem anda pensando em encarar aulas de programação só para não ficar para trás na inteligência artificial pode respirar: o empresário que vai se sair bem em 2028 não é o que escreve código. É o que sabe conferir, antes de assinar, o que a tecnologia vai fazer dentro da empresa.
Quem defende a ideia é Guilherme Friol, CEO da Friol Enterprise, fundador da Vircos e executivo com 20 anos de carreira em tecnologia. Para ele, diante da IA, o dono tem papel de auditor, e não de programador.
“O empresário de 2028 não programa. Audita. Sabe onde está o dado, o que roda onde e o que acontece se o fornecedor parar. Essas três respostas valem mais do que qualquer curso de prompt”, resume Friol.
Auditar sem escrever código
Auditar, nesse caso, não exige saber programar. É olhar para a inteligência artificial da empresa como quem olha um mapa, e não uma tela cheia de código, e conseguir responder às três perguntas da frase de Friol. Também não quer dizer fazer tudo em casa: ninguém precisa montar laboratório. Para coisas que são commodity, como transcrição e leitura de documentos, o certo continua sendo comprar, e quem sabe auditar percebe isso rapidinho.
Na prática, o caminho cabe em três tarefas, uma para cada frente (os dados, o mapa e o fornecedor), todas feitas sobre o próprio negócio.
Primeira tarefa: a lista dos dados
É anotar, para cada decisão que a IA toma na empresa, de onde sai cada informação e quem consegue ver. Parece simples, mas costuma dar trabalho, porque o cadastro de clientes está num lugar, as vendas em outro, as regras internas num arquivo à parte, e ninguém juntou tudo. Feita a lista, costumam aparecer informação em dobro, dado que não é de ninguém e acesso liberado para mais gente do que precisava. E não é capricho: pela LGPD, a pessoa afetada por uma decisão tomada só de forma automatizada, com base nos dados dela, pode pedir revisão, e a empresa tem que informar, quando solicitada, os critérios e os procedimentos que usou.
Segunda tarefa: o mapa de uma página
É uma folha com as funções de IA da empresa e três anotações para cada uma: onde ela funciona (no sistema do fornecedor ou num modelo aberto instalado na estrutura da própria empresa), se ela guarda a regra do negócio ou faz um serviço que seria igual em qualquer lugar e quem bate o martelo quando ela muda. Com essa folha, o dono separa o que vale comprar do que vale construir. Sem ela, leva o pacote fechado e só depois descobre que a regra da casa foi junto. Por isso, vale pedir a folha pronta antes de assinar qualquer proposta.
Terceira tarefa: o plano B
O fornecedor pode mexer no preço, no comportamento e na disponibilidade do modelo por decisão própria, sem passar pelo cliente. Então, para cada função importante, vale responder: se ele sumir amanhã, em quanto tempo a operação volta? O plano B põe no papel o que fazer logo depois de um aviso de descontinuação, quem fica encarregado e qual é o prazo. E o cuidado tem motivo: segundo projeção da Gartner, mais de 40% dos projetos de IA agêntica devem ser cancelados até o fim de 2027. Na lista de causas estão custos crescentes, valor de negócio pouco claro e controles de risco inadequados.
“Governança de dados, leitura de arquitetura e risco de fornecedor. Quem domina as três não depende de ninguém para decidir. Quem não domina nenhuma vai decidir o que o vendedor mandar”, diz o executivo.
Então, empresário precisa aprender a programar para usar IA? Não. Precisa aprender a perguntar e a cobrar resposta de quem vende. Com a lista, o mapa e o plano B na mão, dá para sentar com o fornecedor e pedir prazo, cláusula e compromisso que ele não oferece sozinho. Nada disso pede código, e tudo pode começar na próxima proposta que chegar à mesa.
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