Por Diogo Monteiro
Eu só tive dois empregos na vida.
O primeiro, como biólogo, atuando no licenciamento ambiental. O mundo que mede o impacto da sociedade no capital natural. As unidades de medida são em hectares, espécies, bacias hidrográficas, prazos de licença. O tempo desse mundo é longo, físico e não negociável.
O segundo emprego, como founder e advisor, atuando em startups, VC e M&A. As medidas do capital financeiro são runway, múltiplos, sinergias, TIR, trimestres, exit. O tempo é curto, abstrato e negociável.
Os dois mundos sempre trataram um ao outro como estrangeiros, quase inimigos. Um lado vê o outro como custo inconveniente. O outro enxerga o último como apressado e com ética duvidosa.
O fato é que, tendo vivido em ambos, tenho o privilégio de admitir que essa separação nunca foi real, são apenas aparências, onde cada um escolheu prestar atenção. As semelhanças, maiores que as diferenças, é onde ambos se recusam a admitir que são o mesmo.
Enquanto o mercado discute “o fim do ESG”, o problema real não é o assunto, é a falta de clareza. Aconteceu antes com a transformação digital: toda empresa dizia que era prioridade, e na prática andava a passos de tartaruga. Até a pandemia obrigar todo mundo a se adequar em semanas.
Agora, a “COVID do clima” pode ser bastante diferente. Não existe um lockdown para evitar que o vírus se espalhe. Quando (e caso) o clima se torne um “vírus”, o estrago não é “consertável” em três anos. Me perdoe se pareço alarmista, não é o caso. A questão central é se queremos a COVID do clima para agir depois. Ou temos a coragem e a visão de agir agora?
Quero, antes de tudo, reconhecer um potencial viés. Tendo trabalhado em muitos projetos de Mineração pelo país, compartilho o fardo que Mariana e Brumadinho ainda detém sobre nós.
A Amazônia, tida como um oásis de carbono e biodiversidade, tem contra si a própria ciência, que demonstrou que ela pode funcionar como emissora de carbono, não sumidouro, sem que se derrube uma árvore. Durante a seca extrema de 2023, ela foi responsável por 30% da perda líquida de carbono tropical mundial. Sem que se fossem utilizadas motosserras, correntões ou Fellers.
O hidrogênio verde, a Captura e Armazenamento de Carbono (CCS), biocombustíveis, Offsets com escândalos de integridade, bioplásticos.
A história recente é recheada de erros que pareciam acertos a primeira vista, sejam por dados econômicos que inviabilizaram a tecnologia ou o impacto de fraudes de mercado envolvidas nessas narrativas.
Mas, voltando ao presente imediato, que empresário, C-level ou investidor não vive desafios e problemas? Que empresa não tem planos e metas audaciosas, e ao mesmo tempo arriscadas?
Vivemos entre a (aceitação da) incerteza e o upside em potencial. Entre as expectativas de mercado e a realidade objetiva do agora. Nesse oceano de possibilidades (e tempestades), creio profundamente que o Brasil pode (e deve) virar uma potencia mundial como nenhuma outra. Sem ufanismo barato, somos o único país no mundo que não precisa escolher entre crescer e preservar porque, nos seis setores em que pode ser protagonista mundial, a vantagem física e ecológica SÃO a vantagem econômica. Não uma restrição a ela. O país tem hoje, ao mesmo tempo:
– a maior matriz elétrica limpa entre as 20 maiores economias do mundo (86,8%, #1 do G20 – Ember/EPE);
– a maior reserva de água doce do planeta (12%, ANA);
– 30% do potencial mundial de reflorestamento (McKinsey);
– entre 15% e 20% da biodiversidade do planeta (MMA/CBD);
– domínio quase total da produção mundial de nióbio (93%, USGS) e a 2ª maior reserva de terras raras (11 Mt, USGS);
– e o caminho mais barato do mundo para aumentar produção de alimentos sem arrancar uma árvore sequer (as estimativas variam entre 12-100 milhões de hectares de pasto degradado recuperável, dependendo da fonte e método IBGE/MAPA/Embrapa).
Em outras palavras, o Brasil tem o que o mundo precisa, mas historicamente não captura o topo da cadeia de valor sobre eles.
O nióbio é extraído aqui e processado fora. As Terras Raras, mesmo com a 2ª maior reserva mundial, produzimos somente 0,51% do total. Só 85 patentes de biotecnologia concedidas sobre 265 espécies nativas mapeadas, contra 53.828 espécies da flora e 125.251 espécies de fauna conhecidas.
Por outro lado, entre 2025 e 2026, começamos a construir, pela primeira vez, a infraestrutura de captura de valor sobre os recursos que sempre tivemos. O desafio ainda permanece. Leis, mercados, capital e dados batendo à porta ao mesmo tempo, mas já demos os primeiros passos.
O Brasil já venceu a parte difícil. A geologia, o clima, a biodiversidade e os recursos naturais não se copiam. O que falta é a parte que se constrói: o refino, a patente, a tecnologia, a regulação e a infraestrutura. E isso está sendo construído agora, nos dois últimos anos, nos seis setores ao mesmo tempo.
As coisas boas podem ser muito boas
Floresta: No Brasil, um crédito de carbono de reflorestamento se vende a US$ 38,67. Um crédito de desmatamento evitado (REDD+) vale US$ 5,54. São sete vezes mais, e ainda assim o reflorestamento é apenas 5% do mercado voluntário.
Água: A chuva que a Amazônia descarrega sobre as lavouras vale cerca de R$ 120 bilhões por ano (US$ 20 bi). Para comparação, os agricultores norte-americanos gastaram US$9,5 bilhões parra irrigar a lavoura em 2024. Com custos subindo 44% em relação a 2018.
Energia limpa: Em 2025, 87% da eletricidade brasileira veio de fonte renovável. É o maior percentual do G20. O segundo colocado, o Canadá, tem 64%. A produção aqui é mais limpa que qualquer concorrente. O desafio da descarbonização está nos transportes e na linha amarela. A matriz principal é um luxo.
Minerais críticos: Poços de Caldas virou um polo de terras raras, com o Projeto Colossus e o Projeto Caldeira em fim de linha para obtenção das licenças de instalação e operação. Produzimos pouquíssimo e refinamos nada. A China produz 69% e controla cerca de 80% do refino.
Biodiversidade: A soja, uma espécie estrangeira, gera R$ 260 bilhões por ano. Toda a flora nativa que sabemos explorar gera R$ 63 bilhões. Usamos 0,08% dela. Os outros 99,92% estão intocados.
Agro: 12,7 milhões de hectares de pasto autodeclarados como degradado. Essa mesma área emite hoje cerca de 10 milhões de toneladas de CO2e por ano. Convertidos em pecuária regenerativa com floresta nativa, podem capturar até 21 milhões de toneladas de carbono, com quatro vezes mais gado, sem desmatar mais um metro. Acrescentando, ainda, um terço de biodiversidade em relação ao pasto limpo.
Adendo: O Brasil fechou 2025 a US$ 2 bilhões de ultrapassar os Estados Unidos como maior exportador agrícola do mundo.
Em cada um desses seis setores, a palavra que importa é “pode”. O Brasil pode capturar esse valor. Nada disso será capturado automaticamente.
O que fazer agora
Valorizar a floresta pelo que ela entrega
Floresta entrega chuva, captura e retém carbono, purifica o ar, protege o patrimônio genético e ameniza os extremos do clima. São ativos variados, com preços diferentes. Misturar tudo em um pacote só é onde as oportunidades continuam sendo vistas como risco alto para retorno baixo, pois distorce os preços e quebra a cadeia de valor.
Exportar valor antes da matéria-prima
O padrão é insistentemente repetitivo. A bradicinina foi descoberta aqui, no veneno da jararaca, e virou remédio bilionário lá fora. Geologia, clima e biodiversidade não se copiam. Refino, patente e mercado regulado se constroem. Parafraseando Marc Andreessen, “It’s time to build”.
Medir objetiva e exaustivamente
A Amazônia de 2023 é o aviso. Capital natural não é estoque, é fluxo. Ele muda com a seca, com o fogo, com a gestão e as prioridades. O mercado financeiro audita balanço todo trimestre. O capital natural merece o mesmo rigor.
O caminho não é simples.
Dito isso, vê-se mais oportunidades que riscos. É preciso aparar arestas e corrigir rumos para que o Brasil possa assumir o protagonismo ambiental, geopolítico e econômico que lhe cabe neste século.
A resposta já começou. Tem empresa pagando produtor para guardar carbono no solo. Tem restauradora fechando fiança com banco grande. Tem mineradora licenciada em Minas e empresa de cosméticos levando 52 bioativos da Amazônia para a prateleira. Falta isso deixar de ser exceção e virar regra.
O biólogo que vos escreve aprendeu que bronca no financeiro não funciona. E o financista que vos fala também aprendeu que a pressa dos trimestres é uma métrica incompatível com o potencial biológico e natural.
Escrevo hoje como quem aprendeu que a pergunta de ambos pode ser a mesma, ainda que ocupem andares diferentes do mesmo prédio. Compartilhamos o mesmo elevador. E sempre que entro e olho para o espelho, me faço a mesma pergunta:
Queremos esperar a COVID do clima para agir depois, ou vamos usar a coragem e a vista privilegiada para agir agora?
Diogo Monteiro é especialista em sustentabilidade pelo MIT. Tem 16 anos de experiência em licenciamento ambiental e 6 anos como founder e advisor em startups, VC e M&A. Hoje é palestrante e educador. Saiba mais em diogo.eco
O post Dois mundos, o mesmo balanço: o que aprendi entre licenças ambientais e M&A apareceu primeiro em UAI Notícias.