Quem trabalha com programação de máquinas CNC (Controle Numérico Computadorizado) tem acompanhado uma mudança na rotina: sistemas de inteligência artificial já conseguem montar parte das estratégias de usinagem que antes eram escritas etapa por etapa. A novidade levanta dúvidas sobre o futuro da profissão, e a avaliação de quem atua no setor aponta para um papel ampliado do programador. Para Camila Sarantopoulos, CEO da TECC Indústria Inteligente, o efeito mais importante da tecnologia está na escala do trabalho de cada profissional.
Experiência continua no centro
“O maior ganho não está necessariamente em substituir o conhecimento do programador, mas em multiplicar sua capacidade. Existe um conhecimento industrial acumulado durante anos dentro dessas pessoas. Quando a tecnologia assume parte do trabalho repetitivo, esse profissional pode usar sua experiência onde ela realmente gera valor”, afirma.
Na prática, os sistemas de CAM com IA reconhecem a geometria da peça e sugerem ou geram operações. Ao programador cabe conferir o que foi proposto, resolver os casos mais complexos, reduzir tempos de ciclo e dar conta de um volume maior de trabalhos. O conhecimento técnico segue indispensável, o que muda é o alcance dele.
Falta gente para programar tanta máquina
A mudança chega num momento em que as fábricas têm mais equipamentos do que pessoas preparadas para programá-los. Pesquisa da CNI (Confederação Nacional da Indústria) com 1.002 empresários mostrou que 62% citam a dificuldade de contratar mão de obra qualificada como um dos principais itens do Custo Brasil.
Enquanto isso, as compras seguem fortes. A ABIMAQ (Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos) registrou receita líquida próxima de R$ 299 bilhões em 2025, alta de 7,3%, e importações recordes de US$ 32,2 bilhões em máquinas e equipamentos. Diante desse descompasso, a IA aparece como forma de ampliar o rendimento das equipes existentes.
E os projetos, ficam protegidos?
A segurança das informações é outra questão que aparece nas conversas com as empresas. “Um dos receios que mais ouvimos das indústrias é em relação à confidencialidade dos projetos quando entram ferramentas de inteligência artificial. A dúvida é legítima: se uma empresa compartilha uma peça, um processo ou uma estratégia de usinagem com uma IA, esse conhecimento poderia, de alguma forma, beneficiar concorrentes? Esse tipo de preocupação é natural sempre que uma nova tecnologia começa a ocupar espaço dentro das empresas”, comenta Sarantopoulos.
Para a executiva, a história lembra a de outras ferramentas que hoje são comuns. “Foi assim com o e-mail, com a nuvem e com tantas outras tecnologias que, em um primeiro momento, despertaram desconfiança. Com o tempo, à medida que segurança, governança e regras de uso foram amadurecendo, essas ferramentas passaram a fazer parte da rotina empresarial.”
Isso não quer dizer que qualquer IA possa receber dados sensíveis da fábrica. Tudo depende da arquitetura usada, do contrato com o fornecedor, das regras de retenção e de os dados serem ou não utilizados para treinar modelos.
“Na indústria, acredito que acontecerá algo semelhante com a inteligência artificial. A preocupação com proteção de dados precisa existir e precisa ser tratada com seriedade, mas o potencial de ganho em produtividade, velocidade de programação, redução de tarefas repetitivas e melhor aproveitamento dos profissionais é grande demais para ser ignorado. A discussão tende a deixar de ser ‘se a indústria vai usar IA’ e passar a ser ‘como usar IA com segurança, governança e vantagem competitiva’”, diz Sarantopoulos.
O que muda para quem está na profissão
A inteligência artificial tende a assumir a parte mais repetitiva da programação CNC, e o profissional passa a se dedicar a validação, otimização, engenharia de processo e solução de exceções. Para a indústria e para os próprios programadores, o desafio é formar pessoas capazes de trabalhar ao lado de sistemas cada vez mais inteligentes, usando a experiência acumulada onde ela faz diferença.
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