Mais um café para começar o dia, uma dose de álcool para conseguir desacelerar à noite, um estimulante para atravessar a semana. Para muita gente, essa rotina parece só um jeito de dar conta das tarefas. Para o psicólogo clínico Rodrigo Toledo Potechi, pós-graduado em Saúde Mental pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, ela pode ser sinal de algo mais sério: a tentativa de turbinar a própria capacidade para acompanhar uma exigência que não para de crescer.
Quando render vira obrigação
A escalada costuma seguir um roteiro conhecido: mais horas, mais cursos, mais academia, mais networking, mais café, mais estimulante e menos sono. Em ambientes de alta exigência, descansar passa a dar culpa, e o cansaço é confundido com falta de competência.
Nesse contexto, cafeína em excesso, álcool, drogas e psicoestimulantes sem indicação clínica podem virar apoio para sustentar o rendimento. A lisdexanfetamina é um exemplo. O medicamento tem usos médicos legítimos, mas vira um problema quando passa a ser usado para transformar exaustão em produtividade.
Uma pesquisa feita com universitários que usam psicoestimulantes mostrou que 75% deles tinham o chamado neuroaprimoramento como objetivo. O dado revela um raciocínio comum: se não estou conseguindo acompanhar o ritmo, tento ampliar à força a minha capacidade de acompanhá-lo.
O que está por trás da pressão
Segundo Toledo, essa busca não nasce do nada. “Não estamos diante apenas de uma geração mais ansiosa ou menos tolerante à frustração. É uma geração que recebeu uma promessa de mobilidade baseada em estudo, trabalho e desempenho, mas chegou à vida adulta num mundo em que posições e oportunidades circulam de outra maneira. Diante desse descompasso, tenta compensar performando cada vez mais. Em algum momento, corpo e mente cobram a conta”, afirma.
O mercado mudou. As pessoas vivem mais: a expectativa de vida ao nascer, de 45,5 anos em 1940, chegou a 76,6 em 2024. As carreiras se alongaram e a sucessão ficou lenta, já que um levantamento apontou que apenas 16,1% dos CEOs têm sucessor preparado. As empresas também ficaram mais enxutas, e 60% dos CEOs brasileiros ouvidos pela PwC em 2026 esperam menos profissionais em início de carreira nos três anos seguintes, por causa da inteligência artificial. Para quem passou dos 40, o cenário também aperta: 86% das empresas pesquisadas pela PwC Brasil em parceria com a FGV (Fundação Getulio Vargas) não tinham plano de carreira para essa faixa.
O preço aparece no corpo e na mente
A conta vem em forma de ansiedade, insônia, irritabilidade, compulsões, episódios depressivos e burnout. Em 2025, a Previdência concedeu 546.254 benefícios por incapacidade temporária ligados a transtornos mentais e comportamentais, aumento de 15,66% em relação ao ano anterior.
“Uma geração inteira aprendeu que, se o resultado não veio, faltou alguma coisa nela: qualificação, disciplina, produtividade, resiliência. Então, aumenta a dose de tudo. Talvez estejamos tentando corrigir indivíduos para adaptá-los a uma equação que também mudou fora deles”, diz o psicólogo.
Como sair do ciclo
Para Toledo, romper essa lógica exige olhar além da força de vontade e da próxima dose de energia. Segundo ele, “cuidar da saúde mental também passa por reconhecer isso: distinguir o que pertence ao sujeito, o que pertence ao mundo em que ele vive e o que ainda pode ser construído entre os dois, sem transformar em culpa individual aquilo que também nasce de um problema estrutural, coletivo e social”.
“No fim, desenvolvimento deveria ampliar possibilidades humanas, não apenas abreviar processos. Se estamos vivendo mais, precisamos encontrar formas de fazer essas vidas caberem num mundo profissional cada vez mais enxuto, automatizado e competitivo. Pessoas de 28, 42, 52 ou 70 anos continuam sendo pessoas antes de serem recursos, cargos ou indicadores de produtividade”, ressalta.
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